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Frente e Verso: Egon Zakuska

  • Foto do escritor: ateliedoisemeio
    ateliedoisemeio
  • 13 de ago.
  • 7 min de leitura
FRENTE E VERSO é uma série de entrevistas que explora o percurso criativo de artistas de diversas linguagens. A cada episódio, um artista compartilha um pouco da sua trajetória, suas inspirações e os desafios que surgem no caminho.


EGON ZAKUSKA é observador de aves, fotógrafo de vida selvagem, designer e ilustrador. Procura unir as suas fotografias com o olhar atento da ilustração e a precisão do design para compor e registrar a riqueza da nossa avifauna, sempre em busca de aprendizado com cada encontro no campo e da tradução dessa beleza natural com cuidado, técnica e respeito.


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DOIS E MEIO Vimos que sua história com a fotografia de aves começou na pandemia e esse gosto foi se intensificando. Qual é o espaço que a fotografia de aves ocupa atualmente na sua vida?

EGON Na pandemia, em 2020, saí do escritório e passei a trabalhar de casa. Foi quando, perto do Parque da Aclimação, percebi o quanto São Paulo é rica em avifauna. O estalo veio quando um bando de maracanã-pequena (Diopsittaca nobilis) pousou perto da minha janela. Peguei minha câmera e não parei mais. Antes do lockdown, eu focava em paisagens, mas hoje a vida selvagem ocupa um lugar central na minha vida: é o meu momento de desconectar da cidade, ir para o "mato" para "caçar" seres incríveis e acompanhar um pouco dos assuntos deles (lembrando meu escritor favorito, Henry David Thoreau: fui à floresta porque queria sugar a própria essência da vida), reconectar e aprimorar minhas percepções e sentidos e aperfeiçoar minha técnica fotográfica.

DOIS E MEIO Qual considera a melhor e a pior parte da sua rotina?

EGON É importante dizer que não considero a fotografia como parte do meu trabalho enquanto ação para obter sobrevivência material, mas sim uma busca por "vida profunda", como mencionei com Thoreau, distante do utilitarismo financeiro, embora esteja desenvolvendo projetos para monetizá-la. Meu trabalho nesse sentido é como designer e, eventualmente, ilustrador, atuando como freelancer desde o início do ano com projetos que usam inteligência artificial para imagens e vídeos. A melhor parte é a oportunidade criativa e a empolgação de superar as limitações das ferramentas. A pior, vou ser óbvio, é quando o cliente não compartilha do mesmo entusiasmo, mas faz parte do processo.

Gênero Tangara | Fotografia de Egon Zakuska


DOIS E MEIO Você também é designer e ilustrador. Como vê o contraste de temporalidade entre suas demandas enquanto designer e suas demandas enquanto fotógrafo de aves?

EGON O design é meu ganha-pão, regido por prazos, urgências, controle e expectativas de terceiros, onde a pressão por rapidez e performance é constante. Já a fotografia de aves opera no ritmo da natureza: exige paciência, calma e lida com a falta de controle. Por mais que haja planejamento, o resultado é quase sempre imprevisível, exigindo gerenciar tanto a empolgação de um clique surpreendente quanto a frequente frustração no processo. Em resumo, vivem em pólos opostos: a urgência e o controle do design contra a paciência e a imprevisibilidade da fotografia de vida selvagem.

DOIS E MEIO Qual foi a sua sessão de fotos mais desafiadora? Lembra-se de alguma particularidade desse ofício que só descobriu após muito tempo fotografando?

EGON Na fotografia de vida selvagem, me considero um fotógrafo de movimento: embora os registros estáticos de plumagem e anatomia sejam lindos ("fotografias de livro", um termo comumente usado nesse universo), o que me atrai é a ação, seja com o bicho voando, se alimentando ou interagindo com outros indivíduos e outras espécies. Capturar isso exige técnica, percepção rápida e um estudo contínuo sobre o comportamento e a ecologia das espécies, aprendizados que comecei a desenvolver bem depois dos primeiros cliques e que tento aprimorar até hoje. Já as sessões mais desafiadoras são todas aquelas em que preciso acordar de madrugada no frio extremo, encarar terrenos difíceis e suportar o desconforto físico. Momentos duros, mas que, ao final do dia, sempre compensam para mim.


Beija-flor-de-veste-preta| Fotografia de Egon Zakuska

DOIS E MEIO Quais aves sonha em fotografar?

EGON São muitas. Já cliquei espécies icônicas para os passarinheiros, como o soldadinho-do-araripe (Antilophia bokermanni), ameaçado e restrito a 3 municípios do Ceará, mas ainda busco "A foto" perfeita dele. No topo da lista dos meus sonhos estão o quetzal-resplandecente (Pharomachrus mocinno), um espetáculo emplumado que inspirou muitas das crenças dos povos nativos da América Central e México, o colibri-de-cauda-espátula (Loddigesia mirabilis), um beija-flor da Amazônia peruana da espécie que, traduzido do latim, se chama "maravilhosa", a nossa majestosa e rara harpia (Harpia harpyja), a águia mais poderosa do mundo, e a criticamente ameaçada saíra-apunhalada (Nemosia rourei), do Espírito Santo. Por fim, um dos meus maiores objetivos é registrar todas as 13 espécies brasileiras do meu gênero favorito, Tangara. Por enquanto, fotografei as 4 da Mata Atlântica paulista: saíra-sete-cores (Tangara seledon), saíra-militar (Tangara cyanocephala), saíra-lagarta (Tangara desmaresti) e saíra-douradinha (Tangara cyanoventris).



DOIS E MEIO Qual é a sua relação com as redes sociais? A criação de conteúdo em meio a tantas tarefas do ofício de artista independente, as comparações, a pressão por visibilidade, entre outras coisas.

EGON A rede social que realmente me dedico é o Instagram, no perfil @egon_fotografia, que criei para compartilhar meu trabalho e trocar ideias sobre aves, embora, creio, essa interação raramente aconteça por ali. Tenho outros dois perfis antigos, para arte e fotos gerais, mas quase não me dedico a eles. O foco na vida selvagem serve hoje como uma vitrine, sem fins comerciais imediatos (apesar de estar estruturando projetos para o perfil), por isso não sinto a pressão por métricas nem me afeto com comparações. Em relação ao trabalho como ilustrador/designer, como trabalhei no modelo CLT até o fim do ano passado, tive a sorte de encarar 2026 de forma mais leve. A transição para freelancer tem sido tranquila, tocando projetos de vídeo e inteligência artificial para clientes indicados por amigos.


Fotografia de Egon Zakuska


DOIS E MEIO Em “Cartas a um Jovem Poeta”, Rainer Maria Rilke coloca: “Confesse a si mesmo se morreria se o impedissem de escrever. E, principalmente, pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa da noite: eu preciso escrever?”. Você sente que precisa estar em contato com a arte? Deixar de fazer isso o levaria a perder o sentido da vida?

EGON Com toda a certeza do mundo! Entre as lembranças mais antigas que tenho são as de estar desenhando. Desde que me conheço por gente, a arte é uma constante em minha vida: seja rabiscando em uma folha de papel, materializando ideias no computador, discutindo projetos em parceria ou, mais recentemente, segurando uma câmera para capturar um instante de luz. Não sei viver sem isso; sem a arte, minha vida seria completamente manca.


DOIS E MEIO Temos a honra de imprimir suas fotografias na Dois e Meio. Quais são seus principais critérios na escolha das imagens que serão impressas?

EGON A Dois e Meio imprimiu fotografias minhas que estão nas paredes da minha casa, nas da minha família e de amigos, além de exposições de que participei. Sobre os critérios para a seleção: devem conter o que considero beleza estética, ter qualidade de execução, do clique à pós-edição, e criatividade na composição, que muitas vezes envolve fusões de múltiplas exposições. Priorizo também espécies que me encantam e que gostaria que o público conhecesse. Vejo esse encantamento, seja nas impressões fine art ou no Instagram, como uma ferramenta importante de conscientização e preservação ambiental, creio que é uma das trincheiras de esforço ambiental importante. Por fim, conta muito aquele orgulho genuíno de olhar para o resultado e pensar: caramba, eu realmente consegui fazer isso.

Picapauzinho-de-coleira | Fotografia de Egon Zakuska

DOIS E MEIO Quais foram as suas maiores referências de arte na infância? Essas referências ainda perduram?

EGON Interessante... Eu não pensava nisso de forma consciente na época, talvez essa percepção seja algo que eu enxergue mais retroativamente. Pensando assim, eu não era aquela criança desenhista que prestava tanta atenção em personagens de quadrinhos; meu maior interesse estava na Ciência. Nesse campo, o que mais me encantava era tudo o que envolvia paleoarte. Lá nos anos 80 eu era, e ainda sou, fascinado por dinossauros e animais fósseis, e tentava reproduzir o estilo das obras que mais gostava. Eu tinha uma coleção em fascículos da Editora Abril chamada Os Bichos, toda ilustrada, que era o meu maior tesouro. Só muito tempo depois descobri o nome do talentoso paleoartista por trás daquelas ilustrações: Mark Hallett. Já na fotografia, não posso deixar de citar o Luiz Claudio Marigo, cujos registros estampavam as coleções do chocolate Surpresa, como A Fantástica Mata Atlântica. Sobre se essas referências ainda perduram, acredito que sim. Toda a construção do nosso estilo, seja na ilustração ou na fotografia, é o somatório da bagagem que acumulamos desde a infância e que continuamos a expandir enquanto existirmos.


DOIS E MEIO Qual considera o momento mais emocionante da sua carreira? Algo que o motiva a continuar com o trabalho na arte.

EGON Mencionei minha surpresa ao descobrir a avifauna paulista durante a pandemia, com aquele bando de maracanãs-pequenas passando pela minha janela. Esse foi o contexto da "pré-história" da minha trajetória na fotografia de vida selvagem. A "História" de fato começa no momento que considero o mais emocionante dessa jornada: em 2021, para escapar um pouco do sufoco do lockdown, fui respirar ar puro em Ilhabela. Minha companheira, Lívia, e eu nos hospedamos em uma casa cercada de verde, com uma bananeira carregada no quintal que atraía muitas aves. As que realmente me arrebataram foram os tucanos-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus). A visão daqueles bichos me impressionou de tal forma que eu não queria mais parar de fotografá-los. Hoje em dia não considero aquelas fotografias particularmente bonitas ou interessantes, mas o momento foi um divisor de águas, um verdadeiro "antes e depois" que me rendeu por completo à fotografia de aves. A partir dali vieram as buscas e expectativas de registros, as viagens em busca de espécies incríveis, as novas amizades "passarinheiras", as conversas ricas sobre biologia, ecologia e comportamento animal, além do contato com a causa ambiental. Esse encontro foi tão marcante que acabou definindo a marca da minha identidade visual: um tucano-de-bico-verde sobre o diafragma de uma lente. Fico empolgado com a expectativa em até onde esse momento ainda vai me levar!



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Acompanhe o trabalho do fotógrafo Egon Zakuska:



 
 
 

1 comentário


terezasuman
14 de ago.

Se eu pudesse compraria todas as fotos do Egon e colocaria nas paredes de casa. Amo pássaros.


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