Frente e Verso: Coloür Alex
- ateliedoisemeio

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FRENTE E VERSO é uma série de entrevistas que explora o percurso criativo de artistas de diversas linguagens. A cada episódio, um artista compartilha um pouco da sua trajetória, suas inspirações e os desafios que surgem no caminho. Cores, técnicas e ideias se encontram no papel, revelando histórias de quem cria, transforma e imprime.

Alexandra Almeida, Coloür Alex, arquivo da artista
ALEXANDRA ALMEIDA, mais conhecida como Alex, é tatuadora e ilustradora. Trabalha principalmente com tatuagens coloridas e releituras de personagens da cultura pop, algo muito inspirado por tudo que cresceu consumindo desde criança: jogos, animes, mangás e universos fantasiosos que despertaram nela a vontade de criar. É apaixonada por cores, detalhes e por tudo que envolve processos manuais e criativos. Além da tatuagem e da ilustração, também se em outras formas de arte como maquiagem, crochê, bordado e qualquer coisa que a permita transformar ideias em algo visual e palpável. Hoje, vê seu trabalho como uma mistura entre nostalgia, emoção e identidade artística, sempre tentando criar obras que façam as pessoas sentirem exatamente a mesma paixão que sente ao produzi-las.
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DOIS E MEIO Como foi seu primeiro trabalho como tatuadora? O que acha que essa linguagem diz sobre você?
COLOÜR ALEX Meu primeiro trabalho como tatuadora foi hiper especial para mim. Primeiro porque, por motivos óbvios, foi minha primeira tatuagem em pele humana. Eu treinei por muito tempo em pele artificial e demorei bastante para finalmente partir para a pele de verdade, então esse momento acabou sendo um marco enorme na minha trajetória.
E teve um segundo motivo que tornou tudo ainda mais especial: foi a primeira tatuagem do meu marido. Sim, ele foi minha cobaia oficial e continua sendo até hoje quando invento alguma técnica nova para testar. (risos)
As minhas primeiras tatuagens ainda não carregavam totalmente a identidade artística que eu queria seguir. No início, acredito que a gente precisa primeiro dominar a técnica: entender traço, pintura sólida, degradês, aplicação de cor… tudo isso antes de conseguir imprimir a própria linguagem no trabalho de forma consistente.
Então passei muito tempo treinando esses fundamentos até me sentir confortável o suficiente para começar a ousar artisticamente. E foi assim que encontrei a minha linguagem: tatuagens extremamente coloridas, que sempre foi algo que eu sonhei em fazer desde o começo.
Essa estética nasceu diretamente do meu amor por cores. Eu passo muito tempo observando o mundo ao meu redor e apreciando detalhes coloridos. As cores do céu em um entardecer, as tonalidades de uma flor, a textura e a paleta de uma roupa, ou até coisas menos glamourosas, como as combinações de cores na decoração interna de um ônibus. Estou sempre reparando nesses detalhes.
E acho que isso diz muito sobre quem eu sou: uma pessoa extremamente curiosa e observadora. Porque, no fundo, quando vejo uma cor ou uma combinação interessante, imediatamente começo a pensar em como posso reproduzir aquilo na pele ou na tela.
DOIS E MEIO Neste momento da sua carreira, qual considera a melhor parte da sua rotina de artista? E a pior parte?
COLOÜR ALEX Atualmente, a melhor parte da minha rotina como artista tem sido justamente os momentos em que eu consigo me desconectar do processo criativo. Seja passeando com meu cachorro, treinando na academia ou simplesmente tirando um tempo para jogar alguma coisa, percebi que a minha arte flui muito melhor quando eu não me cobro estar criando o tempo inteiro.
Por muito tempo eu achei que precisava produzir constantemente para ser uma boa artista, mas hoje entendo que viver experiências fora do trabalho também alimenta diretamente a minha criatividade. Descansar e desacelerar fazem parte do processo criativo tanto quanto desenhar.
Já a pior parte da rotina, sem dúvidas, é quando eu preciso me obrigar a estudar mesmo estando sem vontade. (risos) Eu confesso que nunca fui a pessoa mais disciplinada do mundo em relação aos estudos, principalmente porque trabalho muito baseada em inspiração e curiosidade. Mas também reconheço a importância de continuar evoluindo tecnicamente, então tenho trabalhado bastante essa disciplina nos últimos meses e acredito que venho melhorando muito nisso.

Tatuagem de Coloür Alex, arquivo da artista
DOIS E MEIO Qual a sua relação com as redes sociais? A criação de conteúdo em meio a tantas tarefas do ofício de artista independente, os haters, etc.
COLOÜR ALEX Sendo extremamente sincera, a parte mais desgastante do meu trabalho hoje são as redes sociais. Criar arte já exige muito de mim criativamente, então precisar estar constantemente pensando em conteúdo, gravando vídeos, acompanhando trends, planejando postagens e interagindo online acaba sendo uma segunda profissão dentro da primeira.
Existe uma sensação constante de que, se você não está aparecendo o tempo todo, acaba sendo esquecida. Então muitas vezes eu me pego pensando que preciso fotografar ou gravar tudo já imaginando como aquilo pode virar conteúdo depois. Isso pode ser bem cansativo mentalmente.
E ainda tem a parte da edição, que definitivamente não é o meu forte. (risos) Eu sou uma pessoa muito mais apaixonada pelo processo artístico em si do que pela parte técnica de produzir conteúdo, então às vezes me estresso bastante tentando fazer tudo funcionar.
Mas, ao mesmo tempo, reconheço a importância das redes sociais para o meu trabalho e sou muito grata pela comunidade que construí online. Tenho seguidores muito carinhosos e uma troca muito positiva na maior parte do tempo.
Sobre haters, felizmente são raros. Quando algum conteúdo acaba saindo da minha bolha e aparecem comentários ruins, normalmente eu simplesmente apago e sigo em frente. Claro que dependendo do comentário eu ainda fico remoendo aquilo por um tempinho na cabeça, porque no fim das contas sou humana, mas aprendi a não dar palco para esse tipo de coisa.
DOIS E MEIO Depois que um artista ganha certa visibilidade no contexto das redes sociais, as pessoas imaginam que a pessoa está sempre no auge, em atividade. Qual foi o maior contraste que já viveu entre a percepção pública e sua realidade financeira ou emocional?
COLOÜR ALEX Eu raramente compartilho nas redes sociais situações pessoais mais delicadas que estou vivendo. Sempre enxerguei o meu perfil profissional como uma extensão do meu trabalho, e não necessariamente como um espaço onde eu precise expor todas as complicações da minha vida pessoal ou emocional.
Acho que o maior contraste que já vivi está justamente na diferença entre a percepção que as pessoas têm de mim online e quem eu sou na vida real. Na tela do celular, muitas vezes eu pareço uma pessoa extremamente animada, comunicativa e naturalmente extrovertida. Mas fora dali, eu sou muito introvertida, lido com fobia social e também enfrento altos e baixos relacionados à ansiedade e à depressão.
Então existe quase uma “persona profissional” que eu desenvolvi tanto para as redes sociais quanto para o atendimento ao público. E ela funciona, porque faz parte do meu trabalho. Mas ela é bem diferente da pessoa que existe no convívio íntimo com amigos próximos e familiares.
Acredito que muita gente associa visibilidade com estabilidade emocional, financeira ou até felicidade constante, quando na verdade a realidade costuma ser muito mais complexa e humana do que aquilo que aparece online.

Tatuagem de Coloür Alex, arquivo da artista
DOIS E MEIO Em “Cartas a um Jovem Poeta”, Rainer Maria Rilke coloca: “Confesse para si mesmo se o senhor morreria se o impedissem de escrever. E, principalmente, pergunte-se na hora mais silenciosa da noite: eu preciso escrever?” Você sente que precisa estar em contato com a arte? Deixar de fazer isso o levaria a perder sentido na vida?
COLOÜR ALEX Sem nenhuma dúvida. Eu não consigo me imaginar vivendo sem estar em contato com a arte de alguma forma. Uma curiosidade sobre mim é que a arte, para mim, nunca ficou limitada apenas à ilustração ou à tatuagem. Eu tenho uma paixão enorme por tudo que é manual e criativo. Faço crochê, me especializei em maquiagem, comecei a bordar recentemente e já me aventurei em vários outros hobbies, como biscuit, resinagem e costura. E a lista de coisas que ainda quero aprender continua crescendo: confeitaria, pirografia, impressão artesanal, modelagem 3D… tudo isso me encanta profundamente.
No fim das contas, eu enxergo arte em absolutamente tudo que envolve criar algo com as próprias mãos. Acho que existe em mim uma necessidade constante de transformar ideias em algo palpável, visual ou físico.
Então, sim: acredito que estar em contato com a arte é quase uma necessidade existencial para mim. Não necessariamente apenas como profissão, mas como forma de expressão, curiosidade e conexão comigo mesma. É algo tão presente na minha vida que realmente tenho dificuldade de imaginar quem eu seria sem isso.
DOIS E MEIO Temos a honra de imprimir suas obra aqui no Ateliê Dois e Meio. Quais são seus principais critérios na escolha das imagens que serão impressas?
COLOÜR ALEX Cores. (risos)
Acho que esse é, sem dúvidas, o meu principal critério na hora de escolher uma arte para impressão. Como meu trabalho é muito baseado em impacto visual e em paletas extremamente vibrantes, eu sempre penso em como aquela imagem vai funcionar fora da tela, como ela vai “viver” impressa.
Grande parte das minhas artes são releituras de personagens da cultura pop que já existem, seja de jogos, séries, animações ou filmes. Então normalmente meu processo de escolha acaba sendo bem intuitivo e até simples demais. Eu me pergunto: “Eu gostei dessa arte? As cores dela vão funcionar bem impressas? As pessoas gostariam de ter isso na parede de casa?”
Se a maioria dessas respostas for “sim”, então provavelmente aquela arte já foi escolhida.
No fim, eu acho que a impressão transforma a arte digital em algo mais íntimo e físico. Então gosto de escolher imagens que tenham presença, personalidade e principalmente cores que consigam transmitir emoção mesmo fora da tela.

"Jinx Floral", uma das artes que Coloür Alex escolheu para imprimir na Dois e Meio
DOIS E MEIO Quais foram as suas maiores referências de arte na infância? Essas referências ainda perduram?
COLOÜR ALEX Curiosamente, meu interesse por arte começou através dos jogos. A principal referência que marcou a minha infância, e que guardo com muito carinho até hoje, foi Grand Chase. Foi um dos grandes responsáveis por me fazer começar a desenhar e me aventurar entre rabiscos ainda criança.
Além dos jogos, eu também sempre fui muito apaixonada por animes e, principalmente, mangás. E existem influências estéticas dessa época que permanecem muito fortes no meu trabalho até hoje. Um exemplo enorme disso é CLAMP. Sempre fui completamente apaixonada pelo trabalho delas, tanto pela estética dos desenhos quanto pela construção das histórias e personagens.
Acho que essa cultura geek, mais “nerd”, sempre esteve muito presente na minha vida e acabou moldando diretamente a artista que me tornei. Até hoje minhas ilustrações carregam muito dessa influência da cultura pop, dos jogos, dos animes e das narrativas fantásticas que fizeram parte da minha infância.
DOIS E MEIO Qual o momento mais emocionante da sua carreira? Algo que te motiva a continuar com o trabalho na arte.
COLOÜR ALEX Olha… eu tive muitos momentos emocionantes ao longo da minha carreira, mas sem dúvida os que mais me marcaram foram as experiências que vivi junto da Riot Games através do meu trabalho.
Eu conheci League of Legends em 2013 e nunca mais parei de jogar. Sempre fui apaixonada por todo o universo fantasioso construído dentro do jogo, então viver experiências profissionais relacionadas a isso foi algo muito surreal para mim.
De certa forma, o meu trabalho conseguiu conectar a Alexandra de 14 anos, que desenhava personagens de LoL em uma escrivaninha velha dentro do quarto, com a Alexandra de 27 anos que foi convidada como artista para o primeiro Artist Alley da Riot Games no Brasil, entre tantas outras experiências incríveis que já vivi ao lado deles. Acho que esse tipo de momento faz a gente perceber o quanto sonhos aparentemente “bobos” da adolescência podem, sim, se transformar em algo real.
Mas além dessas conquistas profissionais, existem momentos muito emocionantes que acontecem dentro do estúdio também. Ver a reação das pessoas ao terminarem uma tatuagem é algo mágico. Já vi clientes chorarem, vibrarem, ficarem completamente emocionados ao se olharem no espelho depois da sessão.
E acho que uma das coisas mais especiais que já vivi foi receber pessoas que viajaram de outros estados, e até de outros países, somente para tatuar comigo. É muito difícil colocar em palavras o que isso significa para mim. Saber que a minha arte atravessou distâncias tão grandes a ponto de criar esse tipo de conexão é algo que me motiva profundamente a continuar criando.

Tatuagem de Coloür Alex, arquivo da artista
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Acompanhe o trabalho da artista Coloür Alex:




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