Frente e Verso: Breno dos Anjos

FRENTE E VERSO é uma série de entrevistas que explora o percurso criativo de artistas de diversas linguagens. A cada episódio, um artista compartilha um pouco da sua trajetória, suas inspirações e os desafios que surgem no caminho.

BRENO DOS ANJOS é ilustrador e designer soteropolitano, residindo em São Paulo. Seu trabalho é uma combinação de cultura brasileira e referências pop. Uma mistura de Tropicalismo com David Bowie e Ariano Suassuna com Yellow Submarine.
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DOIS E MEIO Você cria, entre outras coisas, cartazes incríveis e vibrantes. O que acha que a linguagem artística do cartaz diz sobre você?
BRENO Eu sou fissurado por cartazes, acho sensacional como essa mídia conta momentos da sociedade, desde manifestações políticas, sociais, campanhas de saúde, propaganda, etc.
Por exemplo, o cartaz do Woodstock 69 é tão memorável como a apresentação de Jimi Hendrix, aqui no Brasil o pôster do filme Deus e o Diabo na Terra do Céu, feito pelo genial artista baiano Rogério Duarte, transcendeu e virou um ícone pop. Pra mim, é o momento em que o design gráfico e as artes plásticas se fundem, por isso é uma forma muito direta de comunicação.
DOIS E MEIO Qual era o lugar da arte na sua infância e em qual momento percebeu que trabalharia com isso?
BRENO Acho que a arte sempre esteve presente na minha vida, na grande maioria das minhas fotos de criança eu estou segurando uma revistinha em quadrinhos. Eu amava ir nas locadoras e ficar olhando os pôsteres nas paredes, as capas dos VHS, ali pra mim era um museu. Meu pai trabalhava em uma fábrica que tinha uma locadora, toda sexta-feira ele trazia duas sacolas entupidas de filmes, e era um dos melhores momentos da minha semana, olhar todos os detalhes da arte da capa, pegar um papel e tentar copiar as figuras, as letras. Eu queria trabalhar fazendo aquilo, mesmo sem saber qual era o nome da profissão. E lógico que preciso agradecer aos meus pais que sempre incentivaram, compravam aquele pacotão de sulfite com 500 unidades toda semana, fizeram um esforço danado.

Arte de Breno dos Anjos
DOIS E MEIO Neste momento da sua carreira, qual considera a melhor e a pior parte da sua rotina?
BRENO Acho que as duas respostas são a mesma, como eu não sou ilustrador full time, a melhor parte é poder escolher quando produzir e a pior é exatamente essa também, eu não tenho uma produção constante, acabo tendo vários hiatos durante o ano. Por um lado após esses hiatos eu sinto uma evolução no nível do meu trabalho, então aceitei que esse ócio criativo é válido na minha trajetória.
DOIS E MEIO Qual é a sua relação com as redes sociais? A criação de conteúdo em meio a tantas tarefas do ofício de artista independente, os haters, as comparações, a pressão por visibilidade, entre outras coisas.
BRENO Eu tento ter uma relação tranquila com as redes sociais, inclusive acabo negligenciando demais os benefícios dela, sigo artistas sensacionais que mostram o processo criativo deles, conseguem criar uma narrativa sobre as obras, vira um conteúdo interessante para o público e acaba retroalimentando o perfil. Sobre os haters, a vida em agência é um moedor de egos, 99% das coisas que você faz são alteradas, criticadas e massacradas, acaba criando uma casca.
Comparações sempre vão ter, a gente precisa aprender a lidar com isso, tive a sorte de ter tido colegas muito bons na faculdade, isso é bom que aumenta a sua régua, você aprende autocrítica. Vão existir milhões de artistas melhores e piores, iguais a você, nenhum. E isso em uma era de IA cada vez mais vai ser valorizado.
Eu tento focar na parte boa dela que é a possibilidade de trocas, nunca imaginei que poderia trocar experiências com pessoas que me influenciaram, é surreal você mandar uma msg para alguém que você admira e a pessoa responder. Vira uma aula de humildade enorme que eu tento retribuir quando vem conversar comigo dizendo que gosta do meu trabalho ou pede alguma dica.

Arte de Breno dos Anjos
DOIS E MEIO Boa parte das suas artes autorais estão relacionadas à música. Como a música atua no seu processo criativo?
BRENO Acho que a música entrou na minha vida na adolescência, todo aquele sentimento que eu tinha vendo as fitas de VHS quando criança, surgiu quando eu comecei a ter acesso às capas de discos e me apaixonei completamente.
Eu tive um chefe que falava que a música é um anzol emocional, você lança no mar e pesca as mais diversas sensações e sentimentos, você não tem controle sobre o que esse anzol vai trazer.
Hoje a música é combustível para meu processo criativo, a playlist virou um item tão importante quanto o moodboard. Sou viciado em assistir vídeos de produção musical e ver como foi o processo criativo de escolhas de referências, ritmo, de onde pontuar o silêncio, saber quando acrescentar uma textura e quando deixar o mais minimalista possível, acaba virando uma aula de design pra mim.

Arte de Breno dos Anjos
DOIS E MEIO Depois que um artista ganha certa visibilidade no contexto das redes sociais, as pessoas imaginam que ele está sempre no auge, em atividade. Da mesma forma, a ausência nas redes dá a entender que o artista está parado. Qual foi o maior contraste que já viveu entre a percepção pública e sua realidade financeira ou emocional?
BRENO Acho que essas é uma das piores coisas do "mundo moderno", a necessidade de estar sendo visto o tempo todo, e quando eu digo visto é além de mostrar as artes, é colocar a cara nas redes sociais, virar um influencer. Infelizmente isso não é exclusividade na nossa área, cada vez mais médicos, nutricionistas, advogados viram pop stars, muitas vezes com um trabalho nem tão bacana assim.
Eu como sou tímido já perdi algumas oportunidades com marcas bem legais por não me sentir
à vontade na frente das câmeras. Outra coisa é a obrigação de performar, ter um post que viralize, etc, às vezes você só quer postar uma ilustração boba baseada em trocadilho que você disse para a sua afilhada em um sábado qualquer, mesmo que só gere 20 curtidas.
DOIS E MEIO Em “Cartas a um Jovem Poeta”, Rainer Maria Rilke coloca: “Confesse para si mesmo se o senhor morreria se o impedissem de escrever. E, principalmente, pergunte-se, na hora mais silenciosa da noite: eu preciso escrever?” Você sente que precisa estar em contato com a arte? Deixar de fazer isso o levaria a perder o sentido da vida?
BRENO É um sentimento muito paradoxal pra mim, ilustrar continua sendo uma fuga da minha zona de conforto profissional. É uma grande batalha, geralmente como eu gosto de brincar com estéticas e estilos diferentes, o começar, o primeiro traço, achar o tom, vira uma luta de ctrl+z. É um processo de idas e vindas assustador e frustração, aquela voz no ouvido dizendo “é agora que vão descobrir que você é uma farsa” não se cala. Só que em determinado momento, do nada, o traço surge, tocam aquelas trombetas do céu, e o processo deslancha e vira um prazer colocar a mão na massa e trabalhar. O ato de criar é fundamental na minha vida, é a realização de um sonho, não consigo me imaginar fazendo outra coisa mas acredito que a gente fala muito pouco sobre a parte ruim de trabalhar com criação, como a frustração, síndrome do impostor caminham de mãos dadas com a satisfação de ver uma obra finalizada.
DOIS E MEIO Temos a honra de imprimir suas obras na Dois e Meio. Quais são seus principais critérios na escolha das imagens que serão impressas?
BRENO A primeira coisa que eu penso é como os prints vão ficar na minha parede rsrs
Meu trabalho é bastante colorido e com texturas, como eu trabalho 100% digitalmente,
a impressão fine art é um sonho realizado pela fidelidade das cores e detalhes. Quando eu trabalho com o Ateliê Dois e Meio e a impressão chega aqui em casa e eu tiro a arte do tubo dá aquela sensação de “porra, eu que fiz isso aqui”.

Arte de Breno dos Anjos
DOIS E MEIO Quais foram as suas maiores referências de arte na infância? Essas
referências ainda perduram?
BRENO A grande maioria sim. Minhas maiores referências sempre estiveram ligadas à cultura Pop: Mauricio de Sousa, Tim Burton, Cesar Sandoval e Gustavo Machado (quadrinistas brasileiros que desenhavam as revistinhas dos Trapalhões, Turma do Arrepio, etc), Benício com seus lindos pôsteres, Terry Gilliam, Guel Arraes, Cao Hamburguer, Hannah-Barbera, Drew Struzan, Saul Bass, Milton Glaser. Na adolescência chegaram os quadrinistas de comics, Jim Lee, Todd McFarlane, Mike Deodato. Elas continuam aqui guardadinhas. E não posso esquecer das influências que entraram por osmose, sou soteropolitano, Salvador sempre teve muita arte exposta pela cidade: Tati Moreno, Carlos Bastos, Rubem Valentim, Mario Cravo Júnior, Bel Borba, Carybé, entre outros, que eu só fui conhecer por nome quando entrei na faculdade. Essa mistura de cultura pop e o regionalismo moldou completamente as coisas que eu faço hoje em dia.
DOIS E MEIO Qual foi o momento mais emocionante da sua carreira? Algo que te motiva a
continuar com o trabalho na arte.
BRENO Quando eu vi uma camiseta pirata na rua com uma ilustração minha rs. Mentira, o momento mais emocionante, sem dúvida, foi a primeira vez que uma pessoa me disse que eu era uma das referências no trabalho dela, depois de um turbilhão mental de orgulho, dúvida se era de mim mesmo que ela estava falando, caiu uma ficha que mesmo as coisas que a gente acha despretensiosas, acabam impactando a vida de alguém positivamente ou negativamente, por isso precisamos ter uma responsabilidade com as coisas que a gente coloca no mundo.
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Acompanhe o trabalho do fotógrafo Breno dos Anjos:




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