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Entrevista com Opeop, nono participante do "Dois e Meio Convida"

Atualizado: 24 de Jun de 2021

jun/21



Felipe assina há 9 anos sob a alcunha de Opeop, que tem como significado “O psicólogo e o psicopata”, fruto de seu interesse por psicologia forense. Morou em diferentes bairros da ZL, e pôde absorver um pouco de cada cultura local: Na Cidade Tiradentes teve seu primeiro contato com a rua e em Guaianases, seu primeiro contato com Pixo e Graffiti.


Opeop é o nono artista a participar do Projeto Dois e Meio Convida. (clique aqui para conhecer o projeto)


imagem: Rafael Felix

Dois e Meio O que mais tem motivado sua criação artística? Opeop Confio no poder da fala através da imagem. Isso me faz querer experimentar novas formas de pensar com as pessoas através do meu trabalho. Procuro incluir barracos de favela nos meus últimos trabalhos pensando justamente nisso. Falar através do meu trabalho artístico que existe SIM beleza na favela. Que lugares preteridos são morada pra artista. A favela vive arte. E ter essa chance de falar com pessoas diariamente através de um painel feito na favela, Uma ilustração ou quadro é combustível pro meu trabalho.



Dois e Meio Chamou nossa atenção o que está na sua Bio do Instagram “Eu pinto superfícies. Algumas vivas, outras eu dou vida “. Como o universo da tatuagem de relaciona com seus outros trabalhos em arte?

Opeop Comecei a tatuar antes de ir pra rua pintar. Esse começo me “forçou” a ter uma base mais técnica no sentido de criar desenhos que se enquadrem dentro dos determinados estilos mais tradicionais de tatuagem. Após estudar muito pra isso, fui perdendo o prazer gradativamente no ato de desenhar. Até eu começar a desenhar pra Graffiti. Quando comecei a criar pensando no muro como plataforma, tudo mudou. Comecei a me sentir mais desafiado a intervir com espaços, diferentes formatos de muro e formas de encaixe... Minha mente abriu. Quando voltei pra tatuagem após um tempo parado, senti minhas experiências no graffiti mudando a forma como eu criava pra Tattoo. E dai em diante carrego uma das coisas mais importantes que aprendi migrando entre essas praticas artísticas. “Absolutamente todo e qualquer desenho pode ocupar todo e qualquer espaço.” Hoje me sinto devidamente preparado pra criar pra essas duas plataformas, sem distinção.



imagem: Rafael Felix



Dois e Meio Quais as mudanças que a pandemia provocou no seu trabalho artístico?

Opeop Sinto que o isolamento causado pela Pandemia, é o principal fator me ligando ao meu eu lírico nesse momento. A vida adulta nos força a aceitar a realidade de forma passiva. Com o passar dos anos vamos nos habituando a “corrida dos ratos”. Passei a ter menos contato com o meu lado sonhador. O Isolamento me colocou isso novamente diante os olhos. Sem poder sair devido a doença e com a necessidade de produzir para pagar as contas, me vi mais disposto a dar vida a cenários, pessoas e ideias. E tudo isso vem se mostrando através de uma estética mais “Cartoon” ou “Fantasia”. Sinto que ao reencontrar o meu eu lírico, passei a deixar ele mais evidente nos meus trabalhos. Talvez no intuito de tentar fazer que a comunicação possa ser mais ampla, levando discussões rotineiras pra um âmbito de fantasia. Isso é reflexo direto da pandemia em mim.

Dois e Meio Lembra do primeiro trabalho de arte/artista que te marcou na infância?

Opeop Sempre tive curiosidades sobre a pixação. Parte da minha alfabetização deu inicio quando comecei a ler pixos nos muros. Quando estava com 8 anos, Já ia nos sebos do centro atrás de almanaque de tattoo e revistas de graffiti. Tinha uma coleção imensa de revistas, entre elas vc achava Turma da Mônica e revistas 3mundo. E sobre um artista local que eu sempre tive contato com o trampo foi o “Irônicos”. Ele fazia muito muro de escola na Cidade Tiradentes nos anos 90 e 2000. Eu babava demais.

Dois e Meio Como foi sua experiência com o ensino de arte na escola?

Opeop Foi péssima. Como aluno de escola pública sempre me senti muito desmotivado. Acho que talvez os próprios alunos causavam essa sensação. O Ensino artístico não era levado a sério. Então eu tinha uma relação com a arte no meu íntimo. Já lia um bocado sobre e fazia meus esboços de letra e persona. Mas em sala de aula, EU não conseguia sentir esse espaço seguro pra arte. Foi a única matéria que me deixou de recuperação. O único momento em que esse espaço existiu foi na quinta série. Tive uma aula sobre Estêncil e ali começou muita coisa em mim.



imagem: Rafael Felix

Dois e Meio Como você costuma consumir arte?

Opeop Hoje eu me vejo como uma pessoa que consome muito mais arte “fora do meu meio”. Acredito que a inspiração parte de um acumulo, que quando se torna insustentável desaba em forma de ações. Por mais que eu me veja como um artista plástico, acho que a imagem ganha muito mais força quando unida a outros sentidos. É justamente nesses outros sentidos que eu foco o meu consumo artístico. Hoje eu prefiro ouvir um álbum, ver um documentário sobre a estória de uma quebrada, ler um poema de um escritor local... Não necessariamente está dentro do nicho “Artes visuais” mas a correlação é intrínseca pelo fato de todos estarmos falando sobre uma mesma cultura. Sobre um mesmo buraco da sociedade. Então se tiver que resumir, consuma cultura marginalizada. Tem muita verdade ali!

Dois e Meio Foi a alguma exposição memorável que queira compartilhar?

Opeop Fui e participei de poucas exposições ao longo da vida. Mas das poucas que eu tive a oportunidade, sempre me deixa com o coração quente quando eu vejo expos independentes. Quando você vê que tem toda uma galera se unindo pra fazer acontecer é foda demais. As expos no Movimento Cultural Ermelino Matarazzo (@movimentoculturalem) e também do espaço Garagem ateliê ZL (@garagemateliezl). Tem sempre uma energia muito forte porque a galera ali faz acontecer de verdade. É um ambiente incrível pra cena se conhecer melhor e pra quem tá querendo ter contato direto com artistas. Visitem exposições independentes!

Dois e Meio Você conhece o processo de impressão Fine Art? Já tinha impresso uma arte sua nesse ou em outro formato de impressão? Opeop Sempre tive curiosidade e essa é a primeira vez que tenho a oportunidade de colocar o meu trabalho nessa plataforma. Toda a informação que tenho até aqui foi por intermédio da Dois e meio. Assisti uma live em que o Felipe Bit falava sobre tudo. Processo, materiais, durabilidade... Conheço parte da equipe nos bastidores da Dois e meio e são pessoas que sempre tive como referência em diferentes aspectos do meio artístico. E algo que todos dentro da equipe tem em comum é a qualidade técnica nas produções e o comprometimento com a cena artística. Desde o primeiro momento que conheci a Dois e meio, já tinha feito a minha escolha sobre onde deveria imprimir meus prints com a devida qualidade e cuidado.

Arte que a Opeop desenvolveu para o projeto Dois e Meio Convida imagem: Ateliê Dois e Meio Dois e Meio Você pode falar um pouco sobre o desenvolvimento da arte para o projeto Dois e Meio Covida?

Opeop Essa ilustração é parte da minha linguagem mais recente. Nela procuro retratar como pano de fundo a quebrada. Servindo de descanso pra todos que habitam. E no plano principal o caminho entre as arvores que leva aos barracos, é interrompido por uma figura feminina, que carrega um arco como forma de proteger a passagem de entrada. Acompanhada por seus escudeiros que expressam calmaria, ela carrega um semblante pesado, disposta a todo o necessário pra proteger a quebrada. Nessa ilustração, desejei expressar a beleza nos espaços preteridos. O quanto a noite pode ser linda por aqui. Mas mesmo assim, se pensar em entrar, entra com cuidado porque toda quebrada tem seus guardiões.


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Conheça e acompanhe o trabalho de Opeop em @opeop.excs e @opeop.tatts O print acima está disponível para venda <3 Apóie artistas independentes.





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