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Entrevista com Bruno Perê, décimo artista do "Dois e Meio Convida"

jul/21



Bruno Perê é educador e artista urbano e atua na cidade de São Paulo. Já desenvolveu processos educativos em diferentes bairros na cidade, onde produz pinturas em muros utilizando a técnica do estêncil.


Ele é o décimo artista a participar do Projeto Dois e Meio Convida. (clique aqui para conhecer o projeto)



imagem: arquivo Bruno Perê

Dois e Meio Quais principais temas você aborda por meio da sua produção artística e por que? Bruno Perê Vejo minhas intervenções na cidade como uma forma de atuar politicamente na sociedade, abordando temas políticos como críticas sociais nas minhas criações com o estêncil, também já abordei outros temas como a infância e o brincar em meus trabalhos. Me interesso por temas que me atravessam, que me causam algum tipo de sensação ou de reflexão, e no caso de temas mais críticos, vejo minhas intervenções como um revide, uma resposta diante das desigualdades ou as violências cotidianas.

Dois e Meio Você desenvolve muitos objetos, entre eles, os brinquedos.

Como você vê o papel do brincar? Bruno Perê O interesse por brinquedos e o universo lúdico da infância veio através do meu trabalho como educador, estive a frente de um turma de artes visuais para crianças de 8 a 12 anos, onde durante 2 anos, foi de grande aprendizado e transformou minha visão sobre a importância do brincar no trabalho com crianças. E uma oficina que começou como um curso de arte urbana para crianças, se tornou um espaço de criação de brinquedos e brincadeiras a partir das conversas e pesquisa junto com as crianças que participavam. O brincar como um potencializador de aprendizados e descobertas, e o brinquedo como um objeto e dispositivo capaz de provocar e desenvolver e estimular a imaginação, além de diversas capacidades na criança de forma lúdica.



imagem: arquivo Bruno Perê

Dois e Meio Ainda sobre os brinquedos: Você ainda identifica no seu entorno uma separação de brincadeiras por gênero? Bruno Perê Quando falamos de brincadeiras logo imaginamos a mediação dessas brincadeiras por brinquedos. Existem diversas categorias de brinquedos em lojas e shoppings, é uma indústria muito lucrativa e com esses importados a disponibilidade de brinquedos ficou ainda maior e em alguns casos mais acessíveis, o que não significa qualidade, felizmente quando você passa a se preocupar com o brincar, no caso com a imaginação e não com o brinquedo, o brinquedo passa ser um mero detalhe, pois para criança tudo pode virar brinquedo e nesse ponto a separação por gênero também não tem relevância alguma, a lógica capitalista de mercado visa os rendimentos e não o brincar, e nessa caso a separação é muito lucrativa.

Quando você se torna pai, como eu, você percebe ainda mais o peso desse mercado de brinquedos que estão intimamente ligados a séries de desenhos, a filmes e existem muitos brinquedos licenciados que seguem a onda do momento, isso influencia na escolha de um brinquedo para uma criança. Mas no caso enquanto responsável pelo aprendizado e cuidado dessa criança, acredito que os pais podem ter uma participação ativa na escolha dos brinquedos e brincadeiras das crianças, e buscar alternativas que ampliem o universo lúdico delas, e que sim, pode deixar de reproduzir essas desigualdades e diferenças que só servem para limitar a imaginação das crianças e reproduzir preconceitos e desigualdades de gênero de um mundo “adulto” conservador. Esperamos que os brinquedos acompanhem essas transformações sociais que estamos construindo, com um novo olhar para as possiblidades das brincadeiras, que estão além de uma visão reduzida de mundo.



Dois e Meio Você teve aulas de arte da escola? Se sim, como foi? Bruno Perê Como alguns da minha geração que estudou em escola pública, na minha escola teve aulas de Educação artística e também música em fanfarras, sempre gostei mais das aulas de artes, pois haviam muitos trabalhos manuais, de colagem, de maquetes, pinturas, também tive o incentivo em casa, pois meu pai trampava em escritório e trazia muitas folhas que seriam descartadas, que tinha um lado impresso e o outro lado limpo, então eu sempre desenhei muito nessas folhas reaproveitadas.



imagem: arquivo Bruno Perê

Dois e Meio Você tem lembrança da obra de arte ou artista que captou

sua atenção pela primeira vez? Bruno Perê Minha mãe trabalhou como costureira em casa para poder cuidar de mim e minhas duas irmãs, não lembro de meus pais me levarem a museus, o que eu lembro é de acompanhar minha mãe para entregar as roupas no centro e passar em lugares pela cidade e ver aqueles murais e graffitis nas avenidas e ruas. Minha outra memória são os desenhos animados que ficava assistindo na televisãozinha Telefunken vermelha, com imagem preto e branco, e lembro de copiar de cabeça os desenhos que eu mais gostava. O artista que me chamou atenção pela primeira vez foi meu tio Clovis, foi minha primeira referência era o tio artista da família o desajustado que nunca teve um reconhecimento, mas foi por causa dele que tive os primeiros contatos com livros de desenho e pintura. Talvez a arte que me captou foi uma pintura de Siqueiros em um episódio do Chapolim.



imagem: arquivo Bruno Perê


Dois e Meio Você conhece o processo de impressão Fine Art? Já tinha impresso uma arte sua nesse ou em outro formato de impressão? Bruno Perê Já imprimi em diversos processos, mas impressão Fine Art pra mim é uma novidade.


Dois e Meio Você pode falar um pouco sobre a arte que desenvolveu para o Dois e Meio Convida? Bruno Perê Escolhi uma arte que retrata um pouco essa mistura de sentimentos e aflições que estamos vivendo nesses tempos de pandemia. Infelizmente tivemos o azar de passarmos por uma pandemia sendo governados por um psicopata criminoso. Já sabíamos que não dava para esperar nada de um político, mas muita gente não imaginava que poderia ser ainda pior, e foi, e está sendo, infelizmente, perdi alguns amigos e parentes para o vírus da covid-19, e isso de certa forma me fez refletir sobre nossa relação com a morte, é assustador a forma que uma parcela da sociedade lida com a morte de sua população mais vulnerável, com uma total indiferença, sempre quiseram nossa morte e na pandemia isso ficou evidente. Encontrei nessa arte através de cores, traços, trazer a insatisfação com todo esse contexto que estamos vendo no país. É a reprodução de uma intervenção urbana realizada numa avenida principal na região onde cresci que trás a imagem de uma mulher símbolo de luta, ativista dos direitos indígenas e do meio ambiente, em uma de suas mãos segura um facão, referência de uma imagem que ficou mundialmente conhecida quando em 1989, Tuíra Kayapo ameaça com um facão o então presidente da Eletronorte em um debate sobre a construção da hidrelétrica em Altamira (PA). Na outra mão a cabeça do presidente do país com o segundo maior número de mortos pela covid nessa pandemia.



Arte que Bruno Perê desenvolveu para o projeto Dois e Meio Convida imagem: Ateliê Dois e Meio

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Conheça e acompanhe o trabalho de Bruno Perê em @perepecias O print acima está disponível para venda <3 Apóie artistas independentes!





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